13-06-2010 - Bons tempos aqueles - por Viriato Moura*
<br><br>BONS TEMPOS AQUELES...<br><br>
Nossas casas estão fechadas. Não só pelas trancas materiais contra a violência que nos cerca. Nosso lar, que é a casa onde mora nosso coração, reflete nossas inseguranças materiais e emocionais.<br><br>
Num passado não muito distante eram comuns as visitas, geralmente nos fins de tarde e nos dias livres, dos familiares e amigos. Chegavam até sem avisar. Mas eram recebidos com sincero afeto. Adentravam como se fosse em suas próprias residências; sentavam para trocar confidências ou simplesmente para colocar a conversa em dia. O que valia era a presença, a deferência de quem vinha e de quem estava pronto para acolher com alegria as pessoas por quem nutria bons sentimentos. Entre um assunto e outro, um bom cafezinho coado na hora, um pedaço de bolo , talvez alguns biscoitos deliciosos. Tudo feito pela dona da casa ou por sua filha prendada. <br><br>
Bons tempos aqueles em que nos frequentávamos.<br><br>
Mas os hábitos mudaram. Já quase não visitamos nem recebemos visitas. Quando nos encontramos com os amigos, geralmente o fazemos em lugares públicos – restaurantes, bares ou em algum evento social . A cumplicidade do ambiente familiar foi empalidecendo como um papel envelhecido. Como pálidos parecem ter ficado nossos vínculos mais humanos, nossos sentimentos. As intimidades, cada vez mais temerárias, deram lugar à formalidade, à impessoalidade. Os abraços, como os demais afagos, não raro são apenas expressões corporais sociais; até as atribuições de parentesco foram banalizadas pelos “tios” e “tias” que não traduzem nem respeito nem afeição. <br><br>
As manifestações mais puras e mais verdadeiras de sincera amizade como o contato interpessoal foram substituídas por afazeres mais solitários como assistir televisão, DVDs, acessar a internet. O diálogo, que diminuiu até no seio familiar, foi trocado pelo silencioso monólogo das individualidades. É a família perdendo seus elos, fragmentada. Cada um em si e por si. <br><br>
Bons tempos aqueles em que nos frequentávamos.<br><br>
Vazios de presença, nossa e dos outros, não temos com quem compartilhar o melhor de nós; tampouco de dividir com quem queremos bem nossas dúvidas, nossos anseios, nossas fragilidades. Ao que parece, muitos de nós resolvemos fechar para balanço. Um interminável balanço existencial cujo resultado será a triste constatação de que precisamos nos frequentar mais.<br><br>
Do contrário, teremos que conviver com esse doloroso vazio que só será preenchido pela presença de quem queremos bem.
* Médico, escritor, poeta, artista plástico, membro da Academia de Letras de Rondônia e Presidente da Academia de Medicina de Rondônia.